Já fui professor no Brasil, acabei desistindo e atualmente trabalho na parte administrativa na função de coordenador. Mesmo ganhando menos, foi uma área que preservou mais minha saúde mental na educação.
Vou falar um pouco da minha trajetória até chegar na educação:
Eu formei em Ciências Econômicas e justamente no mês da minha formatura da graduação fui demitido do meu trabalho. Lá era uma empresa que estava há alguns anos, era um lugar que gostava de trabalhar. Mas mudou a gestão da empresa e eles fizeram alguns cortes de funcionários, acredito que foi mais para causar medo e para os que ficassem serem mais eficientes para não serem os próximos a serem demitidos (também já tinha percebido que a rotatividade da empresa era alta). A empresa queria uma dedicação a mais de mim (horas extras), mas não poderia naquele momento pois estava fazendo minhas últimas matérias da faculdade. No meu setor tinha três pessoas: minha chefe imediata que era uma péssima funcionária, ela tinha problemas com alcoolismo, não entendia nada de gestão, já chegou atrasada por ter bebido demais, fumava muito. Ela tinha engravidado e possivelmente por conta do seu estilo de vida, acabou perdendo o bebê. A outra funcionária, minha colega de trabalho era deficiente auditiva. A contratação dela foi meio que "obrigatória", tem uma lei que obriga uma empresa que tem X funcionários a contratar uma pessoa deficiente, mas a empresa até aquele momento não tinha nenhum funcionário deficiente e eles tinham que fazer uma contratação de uma pessoa. Por conta da situação das minhas colegas, eles queriam demitir alguém, uma estava passando por um momento delicado, a outra não poderia ser demitida, acabou sobrando para mim.
Após essa demissão, algumas semanas depois estava procurando trabalho novo. Consegui vaga numa franquia de operadora de celular num shopping center, mas o dono estava enrolando para assinar a minha carteira de trabalho, já estava vendo que essa empresa ia ser dor de cabeça. Depois de um tempo começou a pandemia, os shoppings foram fechados e acabei sendo dispensado. Ele pagou o tempo certinho, mas foi um acordo informal.
Acabei voltando para a cidade do interior que morava antes. Tentei trabalho em uma empresa de laticínios grande na cidade, mas trabalho no interior é bem difícil, funciona da seguinte forma: você tem que conhecer alguém influente para poder te indicar. Por isso muitas pessoas vão embora para tentar a vida numa cidade maior, pois emprego para quem não tem influência é uma tarefa difícil.
Mandei currículo para várias empresas, até recebi promessa que conseguiria emprego, mas depois não tive retorno. Fiquei um ano e meio nessa vida na pandemia. Até que surgiu uma oportunidade.
Começando a minha jornada na educação
Fiz um processo seletivo do estado do Espírito Santo para tentar uma vaga como professor temporário.
Consegui a vaga como professor de matemática na Educação de Jovens e Adultos (EJA), mesmo não tendo formação como professor. Pois às vezes sobram vagas, pois ninguém tem interesse, então pode assumir quem fez graduação com matemática na grade como os cursos de Engenharia e Contabilidade por exemplo. A aula disponível era a última aula sexta-feira à noite. Depois consegui completar as horas em um programa de reforço escolar para auxiliar os alunos a recuperarem o ensino pós pandemia. Como comecei a trabalhar na área, fiz uma complementação pedagógica em matemática para conseguir ser professor licenciado para dar aula.
Aprendendo como funcionava as coisas
Aprendi que no ensino público municipal e estadual, o principal foco da escola é não reprovar os alunos, a pressão que os professores sofrem é gigantesca. O máximo de reprovação aceitável é de 1%~1,5% (o governo na verdade queria uma reprovação de 0%). A educação assim como outras áreas é uma pirâmide, o Ministério da Educação Federal pressiona o Estados que pressionam os Secretários de Educação dos Estados que pressionam os Superintendentes que pressionam os Supervisores que pressionam os Diretores que por fim pressionam os professores para não reprovar os alunos. A corda sempre arrebenta no lado mais fraco, se um professor for contra o sistema ele é perseguido. O diretor já é amarrado por conta do salário, ele não quer ganhar menos e voltar para a sala de aula, então não vale a pena para essa categoria ser contra o sistema. O aluno tem que ter 75% de presença para passar de ano, algumas vezes para não reprovar os alunos no final de ano são contadas histórias de sofrimento dizendo que o aluno ajudou a avó doente, o pai alcoólatra, etc, para os professores serem pressionados e passar o aluno, mesmo que ele não teve frequência nas aulas.
Os alunos eles não são idiotas, eles já perceberam que podem fazer o que for, que muito dificilmente serão reprovados. Assim você começa a ensinar para uma sociedade que o esforço, a disciplina e dedicação não são importantes. A cada ano que passa aumenta a quantidade de alunos que chegam no sexto ano do ensino fundamental e não sabem ler, escrever, muitas vezes nem o próprio nome.
Não que a reprovação é uma solução para um problema complexo, mas é complicado os estudantes estarem com 10, 11, 12 anos não sabendo escrever cursiva, não sabendo contas simples de adição e subtração. Mas às vezes o aluno repetir de ano é a solução cabível. A justificativa no governo é que a reprovação pode levar a uma maior evasão escolar, de certa forma isso é uma verdade, então fica um trade-off, aumentar a qualidade da educação dos que ficam ou sempre baixar o nível.
Os professores não poderem cobrar resultados dos alunos está tendo e terá resultados cada vez mais tenebrosos. A população do Brasil está envelhecendo, a população idosa aposentada terá que depender da geração de riqueza da população ativa no mercado de trabalho, terá menos jovens trabalhando para uma população idosa crescente. A produtividade brasileira não aumenta e o quociente de inteligência (QI) das novas gerações está diminuindo. Como esse sistema vai se sustentar? Uma hora a bomba vai explodir...
Os professores têm que lidar com a indisciplina dos estudantes e por outro lado a categoria sofre pressão para os estudantes terem boas notas em provas diagnósticas e avaliações dos indicadores. E se os alunos tiram nota ruim, é tudo culpa do professor, é como se os alunos e a família não tivessem nenhuma responsabilidade. Mas como os alunos vão se esforçar se eles sabem que não precisam de esforço para avançar nos estudos? É uma hipocrisia do sistema muito difícil de entender.
O certo é errado e o errado é certo
As escolas focam muito nos piores alunos, o porquê deles não terem resultado, chamam a família, dá atenção pedagógica, é conversa com pedagogo, diretor, etc. Não que isso seja errado, mas acredito que as escolas tinham que mudar o foco: tinham que dar atenção aos bons alunos. Tinha que ter verba, premiação em dinheiro, em vantagens para os melhores alunos da turma. Assim geraria uma competição saudável para chegar no topo, para ser o melhor. Mas o Brasil odeia os vencedores, temos a cultura da mediocridade, é implícito na cultura brasileira que é errado se destacar, ser o melhor em algo. O bem sucedido é invejado e punido (vemos isso quando o empresário sempre é o "vilão" e o governo que é o "bonzinho"). Principalmente nas periferias, os bons alunos são vistos como "otários", como os "bobos" e os péssimos alunos que são vistos como exemplos pelos outros estudantes (os que são populares e desejados), uma total inversão de valores, tinha que ser ao contrário, incentivar os bons para a sociedade colher frutos melhores.
Os alunos com habilidades especiais, os superdotados, tinham que receber incentivo, participar de prêmios, ter um atendimento especializado para a pessoa alcançar sucesso na área que ela é muito boa, mas não vejo muito incentivo, é uma tristeza, pois se perde muitos talentos.
Se tivesse um incentivo financeiro aos melhores, todo mundo ia querer receber, isso seria uma forma de evitar a evasão.
A não assistência aos alunos com deficiência e transtornos
Esse assunto é polêmico, mas é preciso pensar sobre ele, envolve muita a decisão da família. Nas escolas possuem os professores de atendimento especializado, mas o que percebo é que a maiorias dos profissionais da área têm a qualificação péssima. Vamos supor que um professor de matemática passe uma atividade, acaba que as atividades para os alunos com transtorno mental vão para o caminho da simplificação, mas essa não é a melhor forma de garantir o ensino. A integração desses alunos é uma coisa muito forçada, é tipo a lei que obriga as empresas a contratarem deficientes, aí a empresa dá uma tarefa simples para o funcionário, mas a pessoa pode ter capacidade de muito mais, mas não tem oportunidade, pois os recursos humanos/patrão têm preconceitos e não dão oportunidades da pessoa avançar, acontece a mesma coisa na escola.
Acredito que as escolas teriam que ter profissionais de psicologia de excelência, fazer testes para avaliar a capacidade do aluno que precisa de atendimento especializado. Fazer um plano de ensino para desenvolver ao máximo a capacidade desse estudante junto com o professor de atendimento especializado para a execução desse plano. Além disso um acompanhamento com uma assistente social para ser uma ponte entre a escola e a família.
Sinto que muitos talentos se perdem aí também, principalmente os alunos surdos, pois muitos professores formado em Língua Brasileiras de Sinais não conseguem ensinar os conteúdos como Ciências e Matemática nesse língua. A pessoa pode desenvolver o seu intelecto, mas a escola é ineficiente de garantir o aprendizado.
Uma opinião polêmica, a escola é obrigada a aceitar todos os alunos, mas se a família identifica que o aluno possui um transtorno que transborda em violência. O estudante bate nos outros colegas e professores. Acredito que o mais adequado, se possível, é esse estudante ser acompanhado numa unidade especializada para alunos com transtorno como a APAE, pois acaba gerando muito sofrimento para muitos alunos e professores se essa pessoa frequentar uma escola regular, mas aí é uma reflexão da família.
A fome
Isso é um problema que muita gente nega, finge que não quer ver, quem passa por essa situação tem vergonha, mas o fato que a fome existe. E isso prejudica muito o aprendizado. Muitas vezes a criança não se concentra ou é violenta por conta desse fator. Às vezes até os funcionários da escola não têm essa sensibilidade, pois não conseguem se colocar no lugar do outro.
Nas escolas estaduais do Espírito Santo a merenda é terceirizada, a empresa obviamente quer ter o lucro máximo e muitas vezes compra os alimentos da pior qualidade para oferecer aos estudantes. Muitos estudantes por conta da qualidade ruim, não comem na escola, acabam que não ficam bem alimentados. Muitos do que comem, são aqueles que passam necessidade em casa.
É uma área que para mim não deveria ser terceirizada, pelos altos impostos que pagamos, o governo tinha que fornecer uma alimentação de altíssima qualidade.
Nas escolas da prefeitura, é o próprio munícipio que oferta a alimentação, mas por conta da corrupção e desvio de verba da merenda, tem alguns mandatos políticos que os estudantes também recebem merenda de péssima qualidade nutricional (uma das importâncias de votar bem). A corrupção mata o futuro do país e alimenta a fome de milhões.
Para mitigar os efeitos, as escolas tinham que ter assistência social, muitas famílias são pobres com familiares analfabetos, não sabem como recorrer aos seus direitos para receber um programa de assistência como o Bolsa Família, tarifa social nas contas de água e energia, etc. Alguns munícipios entregam cestas básicas para as famílias de baixa renda. É necessário um trabalho desse tipo. Quando comecei a trabalhar na secretaria, enxerguei mais a realidade, muitos responsáveis dos estudantes são analfabetos e com pouca instrução, precisam de um auxílio para reduzir o sofrimento da pobreza.
Falta de compromisso e qualificação dos profissionais
Vejo muitos profissionais que querem fazer a diferença, querem que os alunos aprendam, sejam cidadãos conscientes e que se desenvolvam intelectualmente. Mas a maioria se decepciona por conta do sistema e acabam desistindo e indo trabalhar mais por obrigação.
É assustador a quantidade de profissionais que fazem graduação mas possuem um ensino péssimo, muitas faculdades, principalmente as particulares mais baratas facilitam demais o diploma e acabam formando profissionais que não sabem nada. Já vi pedagogas que escrevem tudo errado, imagina essas professoras alfabetizando uma criança se nem elas próprias sabem o português?
O governo tinha que pressionar para as instituições aumentarem a qualidade do ensino (mas sei que isso não vai acontecer). As faculdades são empresas, elas sabem também que se pressionarem demais, terão uma alta evasão e os alunos procurarão outra faculdade mais fácil. É uma bola de neve, tem professores que não sabem de nada, aí já tem os alunos que não tem responsabilidade e não tem bons incentivos (na cabeça deles a escola serve para nada e muitos pais só querem os filhos na escola para não darem trabalho em casa), e vai criando um espiral negativo, cada vez a situação piorando.
Muitos professores estão na escola só pelo dinheiro, na minha opinião não vejo problema nisso, pois nem todo mundo vai amar o seu trabalho, mas é necessário fazer o trabalho bem feito. Mas muitos não tem zelo pelo o que é público (algo cultural negativo do Brasil), e vão metendo atestados, mesmo não estando doentes, só para receberem dinheiro sem precisar trabalhar, e isso acaba sobrecarregando os professores que estão na escola que precisam cobrir o horário dos que faltam e acabam tendo menos tempo de planejamento (pois no estado do Espírito Santo o professor não pode contratar um substituto, os professores que estão na escola que devem cobrir quem falta).
A escravidão e os serviços considerados "menos importantes"
Eu passei no concurso público como professor e como agente de suporte escolar (secretário escolar basicamente), decidi ir para o administrativo pois depois que percebi como funciona o sistema estava muito desanimado para dar aula e já estava preparando a minha ida para os Estados Unidos.
Uma coisa que percebi trabalhando na secretaria é que no Brasil, as pessoas desprezam muito serviços mais braçais e aqueles que elas consideram menos importantes. É uma consequência da escravidão, onde as pessoas acham que são obrigadas a serem servidas por aquelas pessoas que elas consideram "inferiores".
Percebi como as funcionárias da cozinha, limpeza e secretária são desprezadas, como se fosse só os professores que fizessem a escola girar. Os professores recebem agrados nos dias dos professores, mas os outros profissionais são tratados como invisíveis, não recebem um parabéns pelo dia da sua profissão e nem um abraço no aniversário. A gestão é péssima, sinto muita falta desse contato mais humano da área de recursos humanos que pensam em todos os funcionários.
Muitas vezes acham que esses funcionários são obrigados a executarem funções que não são da sua obrigação ou abusam da boa vontade dos outros.
A desvalorização vem de cima para baixo, relatei da baixa qualidade da alimentação, não para por aí, também é baixa a qualidade dos produtos de limpeza usado pelas auxiliares de serviço geral. As pessoas sujam os ambientes pois sabem que alguém vai limpar (falta de empatia).
Se você está na secretaria tem que construir uma personalidade forte, você não é técnico do celular e computador de ninguém, nem editor de Excel e Word de impressão de provas e pautas. Tem que deixar bem claro qual é o seu papel e estar preparado para a desvalorização.
Tem esperança?
Não vejo esperança para o Brasil, a educação é um reflexo do futuro, é vi que o futuro do país é assustador. Quem tem um salário melhor na educação recebe um "cala boca" para seguir as ordens. As mudanças deveriam ser da base da pirâmide, mas a base está apenas aceitando o que vem de cima, mesmo que isso obviamente está piorando a situação da educação.
Os alunos não sabem escrever, ler, digitar um texto no computador, fazer uma conta de soma no Excel, não conseguem entender palavras simples por ter o vocabulário cada vez mais limitado.
Acaba sendo um grande teatro, os professores tem um trabalho gigantesco sem resultado, muitos fingem que ensinam, muitos fingem que aprendem. Os indicadores melhoram, mas a realidade é cruel e mostra a verdade.
O ensino financiado pelo governo federal no ensino básico é outra realidade, tem prova de seleção para entrar no Ensino Médio e os professores podem reprovar, se o aluno não acompanha a turma, é tchau. Muitas vezes quem usufrui desse ensino entrando como professor e aluno são pessoas de famílias com a renda mais alta e num núcleo familiar mais estruturado. Os mais pobres acabam no ensino mais fraco gerido pelas prefeituras e estados.
Vejo que em cada geração vai aumentar muito a diferença intelectual entre os ricos e pobres no Brasil, enquanto a escola pública (exceto a federal) não está formando os estudantes de forma adequada, os alunos de pais ricos que estudam em colégios de elite conseguem desenvolver a intelectualidade dos seus filhos. As próximas gerações de ricos cada vez mais inteligentes e com mais oportunidades nesse mundo de grandes transformações e as gerações dos pobres cada vez sem esperança e presa nesse ciclo de pobreza.
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